Dois vestidos, três versões

Casamento da Mariana e do Álvaro no Algarve

“A nossa história começa numa tarde de verão de 2016, num Brunch Electronik em Barcelona. Cruzámo-nos por pura casualidade, sem nenhum amigo em comum e, entre brincadeiras e sorrisos, acabámos por abandonar os nossos amigos e jantar os dois no restaurante preferido do Álvaro, um indiano no bairro do Raval.”

“No dia seguinte eu fui passar um mês de férias a Portugal e o Álvaro, poucos meses depois, mudou-se para a Austrália, mas sempre soubemos que o que tínhamos não podia terminar nunca.”

O pedido de casamento aconteceu no local onde se conheceram, em Barcelona, com a cidade como cenário. O Álvaro fez o pedido com um anel provisório, sabendo o quanto a Mariana gostava de joalharia e moda, acreditava que iria querer desenhá-lo. Para isso, planeou uma engagement trip com o objetivo de celebrar o noivado antes dos preparativos do casamento e escolher a pedra para o anel. A viagem levou-os até à Índia, país associado ao restaurante do primeiro jantar dos dois e onde se encontra a maior bolsa de comércio de diamantes e pedras preciosas do mundo.

Em Mumbai, após várias visitas e provas, a escolha recaiu sobre uma água-marinha em emerald cut. Já em Barcelona, a Mariana desenhou um solitário, com a pedra ligeiramente descentrada e um aro com três divisões principais, simbolizando passado, presente e futuro.

Da maquilhagem, ficou encarregue a Marta, uma maquilhadora que a Mariana conheceu poucos dias antes do casamento. Quanto ao cabelo, ficou a cargo da Maria João, a cabeleireira da vila, que já penteava a sua avó e que a viu crescer.

As joias foram escolhidas na manhã do casamento, num momento partilhado com a mãe. Optou por peças de família: uns brincos de ouro branco e diamantes que pertenciam à bisavó, em forma de folha de videira, e um colar em ouro da avó, com o coração de Viana onde se podia ler a palavra Amor, usado para trás.

Quanto ao bouquet com flores compradas na manhã do casamento, duas amigas ficaram responsáveis por compô-lo enquanto se preparava. Ao invés de atirar o ramo, a Mariana foi no dia seguinte, data que coincidia com o aniversário da avó do Algarve, levar o ramo ao cemitério, num momento que descreve como um dos mais agridoces que já viveu.

Para o vestido, a Mariana convenceu “a Núria Malè, minha colega do Mestrado em Jornalismo de Moda e artista de bordado em letras maiúsculas, a aceitar a missão de escrever, ponto a ponto, a história do meu vestido de noiva. Através dela conheci a Rosa Rubio, a costureira mais ágil e perfeccionista que se poderia desejar.” Este processo resultou num vestido composto por duas camadas: um “vestido-base estruturado, com um decote de inspiração medieval e spaghetti straps, revisitando algumas das minhas referências de sempre, como Armani, Prada e Calvin Klein” e um vestido bordado, com transparência.

“Toda a composição dos bordados do vestido é uma ode à nossa história como casal e a tudo o que mais amo no mundo.”

“Na parte da frente podem ver-se duas flores, conhecidas como flores da Índia.”

“Nas costas, cada lado tem um bordado diferente. À esquerda, pode ver-se uma papoila em homenagem ao nosso cãozinho de família, Poppy, que nos deixou este ano com 18 anos. Do outro lado, temos um bordado com o coração de Viana (cidade de onde era a minha avó paterna) com as nossas iniciais, numa clara alusão à evolução do núcleo familiar para a nova família que estamos a construir. Nas costas pode também ler-se “amo-te” em português e catalão, a nossa linguagem do amor bilíngue, terminando na parte inferior com nove estrelas bordadas – os nove anos que estamos juntos (e a última é cadente, porque queremos continuar sempre a pedir desejos).”

“O véu tinha bordado, de cada lado, o nome das minhas avós, duas das mulheres que mais me inspiraram na vida. À volta do véu decidimos acrescentar o ponto chamado “cadeneta mallorquina”, numa referência ao mundo mediterrânico que nos apaixona e define a nossa forma de ser. Este ponto prolonga-se por todo o vestido de gaze de seda, marcando a coerência e a ligação entre os bordados”

“Cada bordado tinha uma composição de cores em diferentes tons de branco e bege, escolhidos com base em inspirações de Alta-Costura da Dior e da Chanel.”

O Álvaro usou um fato cruzado bege em espinha, feito à medida na alfaiataria Señor, em Barcelona, em seda e linho. Complementou o look com alpargatas catalãs brancas e castanhas, da La Manual Alpargatera, que combinavam com as Castañer da Mariana.

Como acessórios, levou o seu relógio Hamilton Ventura dourado e os botões de punho em bambu e ouro branco do seu avô. Não usou gravata, alinhando-se com a atmosfera relaxada do casamento e o estilo próprio que o caracteriza.

O casamento realizou-se no Algarve, onde vive a família materna da noiva e onde sempre passaram férias. A cerimónia, não religiosa, foi conduzida pelos amigos do casal, realizada na Quinta Morgado do Quintão, em Silves, com uma oliveira centenária como pano de fundo.

A Mariana chegou acompanhada pelo pai num dos carros clássicos da sua coleção, um Karmann Ghia branco de 1960. “Foi muito divertido chegar e ver toda a gente à minha espera, e o facto de o meu pai ter decidido aproximar o carro o mais possível dos convidados.”

Para a entrada da Mariana, elegeram o fado “A Bia da Mouraria”, da Carminho, com a letra adaptada aos nomes dos noivos, acompanhado por guitarra portuguesa, com músicos da Associação de Fado do Algarve.

“Para o Tomás, o nosso menino das alianças, quisemos que levasse a essência ibérica: a camisa que usou era a camisa tradicional com o bordado de Viana e os sapatos eram alpargatas catalãs. Para as alianças, tivemos a ideia de usar a típica cesta da “apanha ao figo”.”

No final da cerimónia, a fadista e a amiga Bia cantaram “Rosa Albardeira”, com letra de João Monge, um poema sobre a criação de uma família.

Todo o estacionário do casamento foi desenhado pela Mariana, com a sua própria caligrafia. Para identificar os lugares, criaram marcadores de livros personalizados com o nome de cada convidado e incluíram uma miniatura em cerâmica de barro tradicional português como lembrança. O seating plan foi feito em duas peças de cortiça, em homenagem à região e ao antigo negócio familiar.

Os convites foram feitos a partir de postais antigos do Algarve, datados dos anos 80 e 90, comprados a vários colecionadores e enviados por correio.

“Para animar o cocktail, contamos com os Bendito Relío, um grupo de três jovens sevilhanos que descobri no Instagram. Foram absolutamente espetaculares e ninguém queria parar de dançar antes do jantar.”

O catering foi da Encontrus, que permitiu criar um menu muito português, com um toque contemporâneo e uma dose generosa de marisco. Para as sobremesas, encomendaram doces típicos do Algarve a pasteleiras locais e o bolo dos noivos foi composto pela sobremesa preferida da Mariana: ovos moles da Peixinho.

Durante o jantar, elegeram Bossa Nova, e criaram uma playlis apenas com música brasileira de grandes poetas, refletindo o ambiente de quando recebem amigos em casa, em Barcelona.

Os noivos abriram a pista de dança ao som de “Il mio canto libero”, de Lucio Battisti, seguida de “Loving Arms”, de Fred Again – o DJ eleito foi o Mister Bempo.

Para a fotografia, digital e analógica, os noivos elegeram os A Film Love e, quanto ao vídeo, deixaram nas mãos do amigo Fabi, que ofereceu como presente de casamento enquanto se estreava num registo do género.

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